O que a resolução do PT sinaliza, na prática
A resolução aprovada em Salvador é menos sobre o agora e mais sobre o 2026. Ela cumpre três funções centrais:
1) Pressão política direta sobre o Banco Central
O PT eleva o tom contra a autonomia do BC e personaliza o conflito, mesmo com Gabriel Galípolo — indicado por Lula — já na presidência. O recado é claro:
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o partido quer queda mais rápida da Selic,
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vê a política monetária como freio ao projeto de governo,
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e prepara o terreno para rever a autonomia do BC no próximo mandato, se Lula for reeleito.
A crítica à “financeirização” e ao “bloqueio ao projeto eleito nas urnas” recoloca a velha disputa entre:
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estabilidade monetária x crescimento com política ativa do Estado.
2) Tentativa de reabrir o debate sobre a meta de inflação
Ao defender a revisão da meta de 3%, o PT faz algo relevante:
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reconhece implicitamente que a meta atual é difícil de cumprir sem juros altos,
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e tenta legitimar uma inflação um pouco maior como “custo aceitável” para crescimento e emprego.
Isso cria tensão direta com:
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o mercado,
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o próprio arcabouço fiscal,
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e, em parte, com a postura mais cautelosa de Haddad.
Mesmo com a inflação de 2024 em 4,26%, dentro do teto, o partido quer mudar as regras do jogo — não apenas jogar dentro delas.
3) Agenda social com forte apelo eleitoral
Do ponto de vista político, o pacote é muito claro:
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Fim da escala 6x1, sem redução salarial → discurso direto com a classe trabalhadora urbana.
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Tarifa zero no transporte → promessa popular, mas com alto custo fiscal e operacional.
Aqui aparece a linha de tensão interna no governo:
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O PT empurra a agenda.
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Haddad atua como freio técnico, dizendo:
“tem impacto fiscal, precisa de financiamento consistente”.
Ou seja: o partido pressiona pela política; a Fazenda tenta evitar que vire bomba fiscal.
Leitura política mais ampla
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O PT está reafirmando identidade, não apenas apoiando o governo.
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A resolução funciona como um documento de disputa interna e externa:
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interna, com Haddad e setores mais moderados;
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externa, com o BC, o mercado e a oposição.
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É também um aviso:
Se Lula disputar 2026, o segundo mandato tende a ser mais assertivo, menos conciliador com a lógica do BC autônomo e do controle rígido da inflação.
Ponto-chave de contradição
O discurso político é forte, mas o desafio central continua sem resposta clara:
👉 Quem paga a conta da tarifa zero?
👉 Como reduzir juros sem desancorar expectativas de inflação?
Enquanto isso não estiver resolvido, a resolução funciona mais como manifesto político do que como plano de governo.
