A Campanha da Fraternidade 2026, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, ao escolher o tema “Fraternidade e Moradia”, toca em uma das questões sociais mais estruturantes do país: o direito à casa própria como fundamento da dignidade humana. A proposta ultrapassa o campo religioso e se insere no debate público sobre desenvolvimento, planejamento urbano e justiça social.
Em Três Lagoas, segunda maior cidade de Mato Grosso do Sul, com cerca de 147 mil habitantes, o tema dialoga diretamente com a realidade local. Consolidada como polo industrial e sede de algumas das maiores fábricas de celulose do mundo, a cidade experimentou crescimento acelerado nos últimos anos. Esse dinamismo econômico, impulsionado também por empreendimentos regionais como a nova fábrica da Arauco em Inocência, intensifica a pressão sobre o mercado imobiliário.
Inocência, com pouco mais de 8 mil habitantes, já enfrenta forte valorização imobiliária e escassez de moradias populares. Muitas famílias optam por residir em Três Lagoas ou até em Paranaíba, enquanto os aluguéis continuam em alta. O fenômeno revela que o problema habitacional é regional e exige planejamento integrado entre municípios.
O déficit habitacional brasileiro é expressivo. Segundo dados mencionados pelo bispo Dom Luiz Gonçalves Knupp, o país registra cerca de 6 milhões de famílias sem moradia e 26 milhões de residências inadequadas. Em Mato Grosso do Sul, estima-se aproximadamente 76 mil moradias precárias. Em Três Lagoas, o cadastro habitacional contabiliza cerca de 4.600 inscritos, evidenciando a demanda reprimida.
Nos últimos anos, os investimentos em habitação popular no município foram limitados. A entrega recente de 20 casas — parte de um conjunto de 50 unidades no Jardim das Violetas — representa avanço, mas ainda distante da necessidade acumulada.
A cidade também convive com duas áreas ocupadas. Uma delas, localizada em propriedade particular na saída para Brasilândia, reúne mais de 300 famílias desde 2018. Naquele ano, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul suspendeu a reintegração de posse após pedido da Defensoria Pública de Três Lagoas. O processo segue em tramitação.
A outra ocupação, no bairro São João, ocorre em área pública desde 2021. Recentemente, o Supremo Tribunal Federal suspendeu os efeitos de lei municipal que restringia o acesso de ocupantes irregulares a programas habitacionais, reforçando o entendimento de que a moradia é direito constitucional diretamente vinculado ao princípio da dignidade da pessoa humana.
O debate jurídico revela que a questão não se limita a regularizar ou desocupar áreas. Trata-se de enfrentar estruturalmente a ausência de oferta consistente de habitação popular. A omissão prolongada tende a consolidar ocupações desordenadas e pode resultar na formação de bolsões permanentes de precariedade urbana.
É relevante observar a mudança de modelo anunciada pela atual gestão municipal, priorizando moradias horizontais com possibilidade de ampliação, em substituição a grandes conjuntos de apartamentos implantados anteriormente, como nos bairros Novo Oeste e Orestinho. A proposta busca oferecer mais flexibilidade às famílias e reduzir problemas sociais e estruturais verificados em experiências passadas.
O desafio, entretanto, permanece significativo. Crescimento econômico e desenvolvimento industrial precisam caminhar lado a lado com planejamento urbano, política habitacional contínua e cooperação regional. Sem isso, há o risco de que a prosperidade produtiva contraste com a expansão da vulnerabilidade social.
Ao provocar essa reflexão, a Campanha da Fraternidade cumpre papel social relevante. O debate não deve ser tratado como embate político pontual, mas como compromisso permanente com a dignidade humana. Moradia não é apenas teto e paredes — é condição para acesso à educação, saúde, trabalho e cidadania plena.
Ignorar essa equação é comprometer o próprio futuro do desenvolvimento que tanto orgulha a região
Campanha da Fraternidade deste ano, lançada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, coloca no centro do debate um tema sensível e urgente: “Fraternidade e Moradia”. A reflexão vai além da dimensão religiosa. Trata-se de reconhecer a moradia como direito fundamental e condição básica para a dignidade humana. Em Três Lagoas, segunda maior cidade de Mato Grosso do Sul, com cerca de 147 mil habitantes, o tema dialoga diretamente com a realidade local. O município abriga as maiores fábricas de celulose do mundo e consolidou-se como polo industrial. O crescimento econômico atraiu milhares de pessoas nos últimos anos e continua atraindo, inclusive por empreendimentos regionais como a fábrica da Arauco em Inocência. Com pouco mais de 8 mil habitantes, Inocência enfrenta forte pressão imobiliária. Sem oferta suficiente de moradias, especialmente populares, muitas famílias optam por residir em Três Lagoas e até em Paranaíba, enquanto os aluguéis seguem em alta. O fenômeno revela um problema regional que exige planejamento integrado.
O déficit habitacional não é exclusividade local. Dados citados pelo bispo Dom Luiz Gonçalves Knupp indicam que o Brasil possui cerca de 6 milhões de famílias sem moradia e 26 milhões de residências inadequadas. Em Mato Grosso do Sul, levantamento aponta aproximadamente 76 mil moradias em situação precária. Em Três Lagoas, segundo dados do Departamento de Habitação divulgados no ano passado, o cadastro habitacional soma cerca de 4.600 inscritos. Nos últimos oito anos, o município praticamente não registrou investimentos expressivos em habitação popular. Em dezembro passado, o prefeito Cassiano Maia entregou 20 casas e anunciou a conclusão das demais unidades que integram o conjunto de 50 moradias no Jardim das Violetas. A iniciativa é positiva, mas ainda insuficiente diante da demanda acumulada. Atualmente, Três Lagoas conta com duas áreas ocupadas. Uma delas, em propriedade particular na saída para Brasilândia, reúne mais de 300 famílias desde 2018, sob a alegação de impossibilidade de arcar com aluguel. Naquele ano, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul acatou pedido da Defensoria Pública de Três Lagoas e suspendeu a reintegração de posse. O processo segue em tramitação.
A outra ocupação, no bairro São João, ocorre em área pública desde 2021. As famílias vivem em barracos improvisados, aguardando solução habitacional. Recentemente, o Supremo Tribunal Federal suspendeu os efeitos de lei municipal que, segundo a defesa do movimento, restringia o acesso de ocupantes irregulares a programas habitacionais. A decisão reforçou o entendimento de que a moradia é direito constitucional ligado diretamente ao princípio da dignidade da pessoa humana. O debate jurídico evidencia a complexidade do tema. Não se trata apenas de regularizar ou desocupar áreas, mas de enfrentar estruturalmente a falta de oferta de habitação popular. A omissão prolongada tende a consolidar ocupações desordenadas e pode abrir caminho para a formação de bolsões permanentes de precariedade urbana. É importante reconhecer que a atual gestão iniciou uma mudança de modelo, priorizando casas com possibilidade de ampliação, em vez de grandes conjuntos de apartamentos como os implantados no Novo Oeste e no Orestinho, que historicamente geraram problemas sociais e limitações estruturais. Investir em moradias horizontais, com espaço para crescimento familiar, é medida mais adequada à realidade local.
O desafio, no entanto, permanece. O crescimento econômico precisa caminhar lado a lado com planejamento urbano e política habitacional consistente. Três Lagoas não pode correr o risco de ver sua expansão industrial contrastar com a multiplicação de áreas precárias. A Campanha da Fraternidade cumpre papel relevante ao provocar o debate. Não se trata de crítica a esta ou àquela gestão, mas de reconhecer que o problema existe e exige continuidade de investimentos, diálogo institucional e responsabilidade compartilhada entre poder público e sociedade. Moradia é mais que parede e teto. É base para educação, trabalho, saúde e futuro. Ignorar essa equação é comprometer o desenvolvimento que tanto orgulha a cidade.
