A política brasileira no período pós-2018 passou a produzir personagens que, sob a aparência de rigor técnico, frequentemente revelam projetos personalistas e dificuldades de adaptação à lógica institucional. O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) se insere nesse contexto.
Oriundo da Polícia Civil de Sergipe, onde atuou como delegado, Vieira chegou ao Senado impulsionado pela onda política associada à Operação Lava Jato, apresentando-se como representante de uma “nova política”, centrada no combate à corrupção e na crítica ao que definia como “sistema de impunidade”.
No entanto, o desfecho da CPI do Crime Organizado, da qual foi relator, levanta questionamentos sobre a coerência entre discurso e prática. Em vez de concentrar esforços na estrutura e no funcionamento das organizações criminosas — objetivo central da comissão — o relatório final direcionou críticas a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e ao procurador-geral da República, em um movimento que gerou controvérsia jurídica e política.
Para compreender essa trajetória, é necessário retomar o contexto eleitoral de 2018. Vieira foi eleito pela Rede Sustentabilidade com forte apoio de um eleitorado alinhado ao antipetismo. Em entrevista ao El País Brasil, em 2021, reconheceu ter votado em Jair Bolsonaro no segundo turno, mesmo apontando riscos associados ao então candidato. Essa decisão, segundo ele, refletia uma rejeição mais ampla ao projeto político do Partido dos Trabalhadores (PT).
Ao longo do governo Bolsonaro, o senador buscou posicionar-se de forma independente, equilibrando críticas ao Executivo com a manutenção de pautas alinhadas ao seu histórico lavajatista. Na CPI da Pandemia, ganhou visibilidade por sua atuação em interrogatórios, o que ampliou temporariamente sua aceitação em diferentes espectros políticos.
Ainda assim, sua atuação recente indica uma mudança de foco. Com o enfraquecimento do lavajatismo como força política estruturante, o STF passou a ocupar espaço central em suas críticas. Essa postura não é inédita: já em 2021, Vieira defendia a necessidade de maior controle sobre ministros da Corte, citando episódios que, em sua avaliação, demonstrariam falta de accountability.
No caso da CPI do Crime Organizado, o relatório final foi alvo de críticas por não apresentar avanços substanciais no enfrentamento às facções criminosas. Especialistas apontaram a ausência de indiciamentos relevantes nesse campo e questionaram a viabilidade jurídica de incluir autoridades como ministros do STF entre os alvos do documento.
Esse episódio reacende o debate sobre o uso político das CPIs e os limites institucionais de sua atuação. Também evidencia um padrão recorrente na trajetória do senador: a ênfase em pautas de forte apelo público, nem sempre acompanhada de resultados concretos em políticas estruturais.
Ao final, a atuação de Alessandro Vieira na CPI contribui para um diagnóstico mais amplo sobre o cenário político brasileiro: a dificuldade de transição entre o discurso de combate à corrupção e a construção de soluções institucionais duradouras para problemas complexos, como o crime organizado.
