Esse caso pode parecer escandaloso à primeira vista, mas o ponto central é mais técnico do que político — e vale separar bem as coisas para não tirar conclusões erradas.
O que realmente aconteceu:
- Os R$ 137 milhões não são dinheiro público “dado” ao banco.
- Esse valor vem de empréstimos consignados feitos por militares, ou seja, dívidas pessoais.
- As Forças Armadas do Brasil (Exército, Marinha e Aeronáutica) atuam apenas como intermediárias operacionais:
- descontam a parcela direto do salário
- repassam ao banco
Na prática, é o mesmo modelo usado por:
- aposentados do INSS
- servidores públicos civis
Por que isso chama atenção então?
Há três pontos relevantes:
1. Volume alto e crescimento rápido
Os repasses cresceram muito após a compra do Banco Master por Daniel Vorcaro.
Um salto de mais de 1.200% em um ano é incomum e levanta questionamentos sobre:
- estratégia agressiva de crédito
- possível concentração em públicos específicos (militares)
2. Participação do Exército
O Exército Brasileiro responde pela maior fatia (R$ 115,6 milhões), o que o coloca entre os principais canais de consignado do banco no setor público.
3. Liquidação do banco
A liquidação extrajudicial pelo Banco Central do Brasil muda o cenário:
- novos contratos foram suspensos
- mas contratos antigos continuam sendo pagos, o que é padrão legal
Tem irregularidade?
Pelo que foi divulgado até agora, não há evidência direta de ilegalidade nesse mecanismo. O modelo de consignado:
- é regulamentado
- depende de autorização do servidor/militar
- não envolve uso de orçamento público
Onde pode haver preocupação legítima:
- endividamento elevado de militares
- concentração de operações em um banco que depois entrou em liquidação
- transparência e critérios de credenciamento dessas instituições
As Forças Armadas repassaram R$ 137 milhões ao Banco Master entre 2020 e 2026 por meio de operações de crédito consignado contratadas por militares. Os valores foram descontados diretamente dos salários e enviados à instituição financeira, sem impacto direto nos orçamentos do Exército, da Marinha ou da Aeronáutica. A informação foi publicada inicialmente pela Folha de S.Paulo e confirmada pelo g1 nesta terça-feira (20). Os dados constam no Portal da Transparência e indicam que os repasses das Forças Armadas representam 12,6% do total transferido ao banco por órgãos federais no período, que soma cerca de R$ 1 bilhão. De acordo com os números oficiais, o Exército foi responsável pela maior parte dos repasses, com R$ 115,6 milhões, seguido pela Aeronáutica, com R$ 17,6 milhões, e pela Marinha, com R$ 3,9 milhões. O volume coloca o Exército como o segundo maior responsável por operações com o Banco Master entre órgãos públicos, atrás apenas da Previdência Social. Os dados também mostram uma forte expansão desse tipo de operação após a aquisição do banco pelo empresário Daniel Vorcaro. Em 2020, os repasses somavam cerca de R$ 3 milhões. Já em 2021, houve um salto de 1.253%, atingindo R$ 43,4 milhões. O crescimento continuou nos anos seguintes, chegando a R$ 404,8 milhões em 2025, ano em que o banco entrou em liquidação. Em nota, o Exército afirmou que não houve transferência de recursos públicos para o banco. Segundo a instituição, "os valores envolvidos são oriundos de rendimentos particulares dos militares para o pagamento de dívidas privadas". A Força destacou ainda que atua apenas como intermediária no processo: "o Comando do Exército, via Centro de Pagamento do Exército (CPEx), atua apenas como interveniente, efetuando o desconto autorizado no contracheque e realizando o repasse mensal à entidade consignatária [Master]". O Exército também informou que, após a liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central, em 18 de novembro, rescindiu unilateralmente o contrato de credenciamento para novos empréstimos consignados em 24 de novembro. No entanto, os pagamentos de contratos já firmados continuam sendo realizados. Em 2026, foram repassados R$ 4,3 milhões. A Força Aérea Brasileira (FAB) declarou que os valores transferidos em 2024 e 2025 também se referem exclusivamente a crédito consignado. Segundo a instituição, "após a decretação da liquidação extrajudicial e diante da ausência de ratificação dos dados de domicílio bancário da entidade liquidante, não foram realizadas novas transferências". A Aeronáutica acrescentou que o credenciamento do banco ocorreu por meio de edital público, com comprovação de requisitos legais e financeiros. O modelo permite a oferta de empréstimos consignados, cartões de crédito e outros benefícios, sendo a adesão opcional por parte dos militares. A Força destacou ainda que não há custos para a instituição nesse tipo de operação, que envolve atualmente 234 entidades credenciadas.
