A solidão tem sido cada vez mais reconhecida como um fator clínico relevante no tratamento do câncer, especialmente entre pessoas idosas. O consenso internacional publicado na revista científica The Lancet Healthy Longevity reforça que o isolamento social não é apenas uma questão emocional: ele pode impactar diretamente a sobrevida, a intensidade dos sintomas e a adesão ao tratamento oncológico.
O artigo, elaborado por 40 especialistas de 14 países, aponta que a solidão funciona como um preditor independente de mortalidade. Isso ocorre porque o isolamento prolongado pode desencadear inflamação sistêmica, elevar hormônios do estresse como o cortisol e comprometer a resposta imunológica — algo especialmente preocupante em pacientes com câncer, cuja imunidade já costuma estar fragilizada.
Na prática, o problema se manifesta de várias formas:
- menor motivação para seguir consultas e exames;
- abandono ou redução da adesão ao tratamento;
- pior percepção sobre os objetivos terapêuticos;
- dificuldades logísticas e físicas para manter o acompanhamento.
A oncologista Patrícia Taranto destaca que, quando o paciente perde a motivação por conta da solidão, pode deixar de enxergar o tratamento como caminho para melhorar a qualidade de vida, entrando em um ciclo de negligência e piora clínica.
Solidão não é o mesmo que depressão
Embora possam coexistir, são condições diferentes:
- Solidão: sensação subjetiva de falta ou insuficiência de vínculos sociais;
- Depressão: transtorno mental com sintomas persistentes como tristeza profunda, perda de prazer (anedonia), baixa autoestima e alterações de sono e apetite.
Segundo o psiquiatra e psicogeriatra Marcus Kiiti Borges, em idosos a solidão costuma estar associada a fatores como:
- morte de cônjuge, parentes ou amigos;
- limitações físicas ou cognitivas;
- aposentadoria e perda de propósito;
- redução da mobilidade e da autonomia.
Além disso, o impacto é ainda mais grave quando há vulnerabilidades adicionais, como pobreza ou morar em áreas rurais, onde a distância dos centros de tratamento dificulta o acesso aos cuidados.
Como enfrentar esse problema
Os especialistas defendem uma abordagem multidisciplinar, com participação de:
- oncologistas;
- geriatras;
- psicólogos;
- assistentes sociais.
Entre as estratégias mais eficazes estão:
- grupos de apoio presenciais;
- atividades físicas em grupo;
- visitas domiciliares;
- acompanhamento psicológico;
- fortalecimento da rede familiar e social.
O contato humano e o suporte emocional ajudam o paciente a se sentir amparado, o que pode melhorar a saúde mental, a motivação e a adesão ao tratamento.
Obs.: o link enviado no final da mensagem parece direcionar para outra reportagem, sobre câncer de pele em idosos, e não para esta matéria específica.
Há cada vez mais evidências de que a solidão pode ser um fator de risco relevante para pacientes com câncer, principalmente pessoas idosas. Um consenso internacional, publicado recentemente na revista científica The Lancet Healthy Longevity, estabeleceu que o isolamento social impacta diretamente a sobrevida, a intensidade de sintomas e a adesão desse grupo ao tratamento oncológico. O artigo, que reuniu 40 especialistas de 14 países, define a solidão como uma experiência subjetiva e negativa, decorrente da discrepância entre as relações sociais desejadas e as efetivamente existentes. No contexto da oncologia geriátrica, essa lacuna pode ser fatal. Segundo o texto, a solidão atua como um preditor independente de mortalidade, influenciando mecanismos biológicos como a inflamação sistêmica e o comprometimento da resposta imunológica associado ao estresse crônico. Na prática do consultório, o isolamento cria uma barreira invisível, mas persistente, capaz de comprometer o desfecho do tratamento. “Uma vez que o paciente começa a diminuir a adesão e perde a motivação por conta de um sentimento de solidão, isso pode afetar significativamente o modo como ele vê sua relação com a doença e os objetivos do tratamento”, analisa a oncologista Patrícia Taranto, do Einstein Hospital Israelita. Como consequência, muitos entram em um ciclo de negligência. “Ele talvez não entenda que o tratamento pode levá-lo a uma melhora de qualidade de vida porque não tem motivação, nem muitas vezes logística ou força física para seguir com consultas frequentes, realização e coletas de exames”, relata Taranto. Ao interromper o acompanhamento adequado, pode haver piora na qualidade de vida e aumento do risco de morte. Solidão e depressão Embora frequentemente confundidas, a solidão e a depressão são condições distintas. A solidão é uma experiência emocional relacionada à percepção de insuficiência nas relações sociais, ao passo que a depressão envolve sintomas persistentes e abrangentes, como baixa autoestima e anedonia (perda de prazer). “Em pessoas idosas, a solidão está frequentemente ligada à perda de relações sociais resultante de condições e eventos adversos da vida, tais como morte de cônjuge, parentes e amigos e problemas de saúde física e mental que limitam sua mobilidade ou funcionalidade”, aponta o psiquiatra e psicogeriatra Marcus Kiiti Borges, membro do departamento de Psicogeriatria da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria). “Além disso, a aposentadoria pode causar sensação de inutilidade, sentimento de vazio e perda de propósito na vida.” O isolamento prolongado desregula o eixo neuroimunoendócrino, aumentando os níveis de cortisol e potencializando processos inflamatórios, como o aumento de interleucinas, proteínas essenciais para o sistema imunológico. Esse mecanismo é especialmente crítico em pacientes oncológicos, cuja imunidade já se encontra fragilizada. O consenso indica que o impacto da solidão é ainda mais severo em indivíduos expostos a vulnerabilidades simultâneas, como pobreza e residência em áreas rurais. A distância física dos centros de referência, somada ao declínio funcional inerente à idade, agrava as barreiras de acesso ao tratamento. Um novo olhar para o cuidado Para reverter esse cenário, os autores do artigo defendem a implementação de uma abordagem multidisciplinar que inclua profissionais de diferentes especialidades, como oncologistas, geriatras, psicólogos e assistentes sociais. Entre as estratégias práticas para combater o isolamento, destacam-se grupos de apoio presenciais, que favorecem a troca de experiências e reduzem a sensação de isolamento; atividade física, especialmente em equipe, por associar benefícios fisiológicos, como fortalecimento muscular e liberação de endorfinas, com engajamento social; e visitas domiciliares, essenciais para pacientes com mobilidade reduzida. “O contato humano pode propiciar mais empatia e cuidado, e tudo isso auxilia uma possível melhora na saúde mental do paciente. Dessa forma, ele se sente mais amparado e pode ter maior adesão e motivação no seguimento do tratamento e no cuidado ao longo da jornada oncológica”, conclui a oncologista do Einstein. https://stories.cnnbrasil.com.br/saude/casos-de-cancer-de-pele-em-idosos-dispararam-nas-ultimas-tres-decadas/
