Lula chama cancelamento de visto da embaixadora brasileira de atitude "irresponsável" e endurece discurso contra EUA
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) classificou como uma "atitude irresponsável" a decisão do governo dos Estados Unidos de cancelar o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A declaração foi feita durante entrevista ao canal Meteoro Brasil, nesta quarta-feira (5), em meio à escalada da tensão diplomática entre os dois países.
Segundo Lula, a medida adotada pela administração do presidente Donald Trump representa um gesto incompatível com a longa relação diplomática entre Brasil e Estados Unidos.
"Ele retirou o visto da nossa embaixadora. Considere essa uma postura irresponsável e impensada para ambas as nações, que mantêm laços diplomáticos há mais de dois séculos", afirmou o presidente.
A decisão do governo norte-americano foi apresentada como uma medida de reciprocidade diante da ausência de aprovação, por parte do governo brasileiro, do agrément — autorização diplomática necessária para a nomeação — do indicado dos Estados Unidos para a embaixada em Brasília, o parlamentar da Flórida Daniel Perez.
O impasse ocorre após o Itamaraty negar, no fim de julho, vistos a dois integrantes do Departamento de Estado dos EUA que pretendiam visitar o Brasil. Segundo o governo brasileiro, a viagem teria como objetivo questionar a integridade do processo eleitoral brasileiro.
Durante a entrevista, Lula afirmou que o Brasil está preparado para reagir a qualquer tentativa de interferência estrangeira nas eleições.
"O Brasil possui total preparo e vai combater qualquer agente externo que tentar se intrometer em nossas eleições. Tenho ressaltado ao Trump que somos dois chefes de Estado octogenários, lideranças das principais nações da região, e que precisamos demonstrar moderação", declarou.
Washington condicionou a restituição do visto da embaixadora brasileira à aprovação formal da indicação de Daniel Perez. Autoridades norte-americanas afirmaram ainda que ofereceram ao governo brasileiro "todas as oportunidades para agir corretamente".
Nos bastidores, porém, integrantes do governo brasileiro avaliam que não há perspectiva de acelerar a aprovação do nome indicado pelos Estados Unidos. Diplomatas brasileiros classificaram a medida adotada pelo Departamento de Estado como uma tentativa de "chantagem" e um episódio sem precedentes na história das relações bilaterais.
Lula também afirmou que tentou negociar a revogação das restrições impostas pelos EUA a autoridades brasileiras e revelou que determinou a suspensão de novos encontros com representantes diplomáticos norte-americanos durante o período eleitoral.
"Todos os diálogos que mantive com ele foram produtivos, e cheguei a entregar uma solicitação para revogar a restrição das 11 autoridades brasileiras impedidas de ingressar nos EUA. Ele não atendeu. Em seguida, questiona sobre os dois enviados que viriam monitorar o processo eleitoral. Cheguei a acolher representantes deles, inclusive dois conjuntamente. Agora, instruí o ministro Mauro Vieira de que não acolherei mais nenhum embaixador no país até o encerramento do pleito", concluiu.
