A entrada de Ronaldo Caiado na disputa presidencial altera de forma relevante o tabuleiro político, especialmente no campo do agronegócio, que até então caminhava para uma adesão mais consistente a Flávio Bolsonaro.
O principal efeito imediato é a fragmentação de um eleitorado estratégico. O agro, que historicamente se alinhou ao bolsonarismo desde 2018, passa agora a adotar uma postura mais pragmática e menos antecipada. Em vez de fechar apoio, lideranças optam por manter diálogo aberto com múltiplos candidatos, o que reduz o capital político inicial de Flávio.
Caiado entra nesse cenário com um ativo importante: credibilidade orgânica dentro do setor. Diferentemente de outros candidatos, sua relação com o agro não é apenas política, mas também histórica e identitária — reforçada por sua trajetória como pecuarista e pela fundação da União Democrática Ruralista. Isso dá a ele legitimidade para disputar esse eleitorado em pé de igualdade.
Além disso, sua gestão em Goiás funciona como vitrine. Medidas como a retirada da chamada “taxa do agro” e investimentos logísticos reforçam a narrativa de eficiência pró-setor. Esses elementos ajudam a explicar por que, mesmo com menor desempenho nas pesquisas, Caiado consegue frear a migração automática de apoio para Flávio.
Do ponto de vista estratégico, o agronegócio demonstra maturidade política ao construir uma pauta comum — segurança jurídica, previsibilidade no Plano Safra, seguro rural e infraestrutura — e apresentá-la a diferentes pré-candidatos. Isso indica que o setor não quer apenas apoiar, mas condicionar seu apoio a compromissos concretos.
Enquanto isso, Luiz Inácio Lula da Silva segue tentando reduzir resistências junto ao agro. Apesar de avanços como o reforço no Plano Safra, դեռ enfrenta barreiras ideológicas e ruídos de comunicação que dificultam uma aproximação mais sólida.
No campo bolsonarista, a entrada de Caiado é vista como um complicador real. A possível composição com Tereza Cristina surge justamente como resposta a esse novo cenário: ela poderia funcionar como ponte com o agro e ajudar a recompor parte desse apoio.
No fim, o que se desenha é um agronegócio menos monolítico e mais dividido no primeiro turno. Isso aumenta a competitividade entre candidaturas de direita e centro-direita, reduz a previsibilidade eleitoral e amplia o poder de barganha do setor — que passa a ser não apenas base de apoio, mas fiel da balança na disputa presidencial.
A entrada de Ronaldo Caiado (PSD) na disputa presidencial altera o cenário político e impacta diretamente o apoio do agronegócio, setor estratégico que vinha se aproximando de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A movimentação do ex-governador de Goiás desacelera a adesão ao senador e introduz um novo fator de divisão entre lideranças rurais que, até então, avaliavam consolidar apoio ao campo conservador, A chegada de Caiado ao páreo interrompeu uma estratégia gradual de aproximação do agronegócio com Flávio Bolsonaro, que contava com o histórico alinhamento do setor ao bolsonarismo desde 2018. Lideranças passaram a adotar uma postura mais cautelosa, evitando manifestações públicas de apoio e mantendo diálogo com diferentes pré-candidatos. Mesmo com desempenho inferior nas pesquisas, Caiado possui forte relação com o agronegócio. Durante sua gestão em Goiás, adotou políticas consideradas favoráveis ao setor, o que fortalece sua imagem entre produtores rurais. Dados do Ministério da Agricultura indicam que o estado registrou crescimento de 23% nas exportações de grãos em 2025, reforçando a percepção positiva de sua administração. O impacto político da candidatura já é percebido internamente no setor. O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), Tirso Meirelles, sintetizou o momento: “O agronegócio vai ficar dividido entre Caiado e Flávio no primeiro turno. Não tem uma preferência. O setor está muito vocacionado nesses dois nomes e ainda está acompanhando o cenário”. A estratégia do agronegócio, segundo Meirelles, envolve a apresentação de uma pauta comum aos candidatos, incluindo demandas como segurança jurídica no campo, previsibilidade para o Plano Safra, ampliação do seguro rural e melhorias em infraestrutura, especialmente armazenagem. Esse conjunto de propostas já foi entregue tanto a Caiado quanto a Flávio Bolsonaro. A entrada de Caiado também traz peso simbólico e histórico. Médico e pecuarista, ele foi um dos fundadores da União Democrática Ruralista (UDR), organização que ganhou notoriedade nos anos 1980 ao defender a propriedade privada em meio a conflitos fundiários. Esse histórico deve ser explorado em sua pré-campanha, com o discurso de “padrinho do agro” sendo utilizado em peças de comunicação. Entre as medidas recentes adotadas em Goiás que reforçam sua imagem junto ao setor, destacam-se a extinção da contribuição ao Fundo Estadual de Infraestrutura — conhecida como “taxa do agro” —, a destinação de recursos para obras logísticas no campo e a revisão de multas aplicadas a pecuaristas. Enquanto isso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que buscará a reeleição, também tenta ampliar o diálogo com o agronegócio, embora enfrente resistências. Declarações consideradas controversas pelo setor e divergências ideológicas dificultam a aproximação, mesmo diante de iniciativas como o aumento de recursos no Plano Safra. No campo bolsonarista, a mudança no cenário é vista como um revés. O agronegócio era considerado um dos pilares da pré-campanha de Flávio Bolsonaro, capaz de conferir sustentação econômica e política. Agora, o apoio se tornou mais disputado. O coordenador da pré-campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), minimizou o impacto da entrada de Caiado e afirmou: “O setor sabe da afinidade que temos com ele, e vamos procurar todos na hora certa. Não será difícil”. Ainda assim, dentro da bancada ruralista não há consenso. O deputado Evair de Melo (PP-ES) avaliou que a nova candidatura eleva o nível da disputa: “Caiado com certeza qualifica o debate e endurece ainda mais o enfrentamento à esquerda. Melhor o Lula correr e ir preparando sua defesa”. Diante da fragmentação do apoio, ganha força a possibilidade de composição política envolvendo a senadora Tereza Cristina (PP-MS) como vice na chapa de Flávio Bolsonaro. Ex-ministra da Agricultura, ela é vista como um nome com forte interlocução no setor e potencial para ampliar a adesão. Questionada sobre a possibilidade, Tereza Cristina evitou confirmação direta e declarou: “Depende de muitos fatores, como os partidos que vão coligar. Tenho certeza de que ele vai escolher o melhor nome para que tenha sucesso”. O cenário, por ora, indica que o agronegócio deve manter posição estratégica, dividido entre candidaturas e buscando preservar influência na definição dos rumos da eleição presidencial.
