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Ciro Gomes, Contarato e Lula: o que salta aos olhos

Publicada em: 24/05/2026 08:28 -

Três cenas revelam um mesmo sintoma da política brasileira contemporânea. No aeroporto de Guarulhos, Ciro Gomes atravessa o saguão entre centenas de pessoas sem despertar atenção. Paro diante de uma banca de vendedoras de perfumes e pergunto se haviam notado quem acabara de passar. Elas confirmam que era Ciro. Pergunto então se alguém ainda nutria apreço pelo antigo presidenciável. A resposta vem rápida, coletiva e quase desinteressada. Quem liga? Um nome que disputou a Presidência da República em três ocasiões, figura histórica da esquerda brasileira, cruza um dos aeroportos mais movimentados do país sem provocar sequer curiosidade. Não se trata exatamente de invisibilidade. Trata-se de um julgamento silencioso. No campus do IFES, em Vila Velha, a cena é outra. Durante uma palestra e uma banca de mestrado ao lado do professor Kaic Dutra-Pereira, escuto algo repetido com naturalidade por quem vive aquele espaço. Aquele campus existe e produz porque houve governo. O que antes era lixão tornou-se território de pesquisa, formação e mobilidade social. O prédio fala antes do discurso. Há políticas públicas que não precisam ser anunciadas, porque permanecem concretas no cotidiano. Já em Vitória e na Grande Vitória, entre redes sociais, conversas de rua e leituras políticas, surge um terceiro quadro. O senador Fabiano Contarato, primeiro senador abertamente gay do Brasil, eleito em 2018 com mais de 1,1 milhão de votos, aparece hoje com índices mais apertados nas disputas eleitorais. Renato Casagrande, ex-governador com ampla aprovação, já desponta com favoritismo. O que escuto de parte do eleitorado é direto. Contarato teria se distanciado de quem o elegeu. As três cenas falam de uma mesma questão. A distância entre símbolo e política concreta. Ciro Gomes acumulou capital intelectual, formulações sofisticadas e densidade discursiva. Mas o eleitorado popular, que continua sendo decisivo nas urnas, aprendeu a distinguir erudição de projeto. Falar sobre o Brasil não é o mesmo que falar para o Brasil. Quando um corpo político perde conexão com as pessoas, torna-se uma paisagem difícil de reaver. O IFES de Vila Velha apresenta o movimento inverso. Não foi necessária propaganda para consolidar memória política. A política chegou em forma de tijolo, laboratório, bolsa de estudo, professor concursado, infraestrutura e permanência. O eleitorado não esquece quando a política altera sua vida e isso aparece nas falas protocolares em eventos internacionais. Como vemos o eleitora tampouco esquece quando a politica pública é prometida (direta ou nas intenções e vazios) e não chega. Contarato ocupa um ponto intermediário entre essas duas narrativas. O gesto político existiu e seu desabafo histórico na CPI da Covid teve potência simbólica e afetiva, mas parte do eleitorado LGBTI+, sobretudo empobrecido e periférico em Vitória, Serra, Vila Velha e Cariacica, parece cobrar outra etapa. O que vem depois do aceno? O centro de acolhimento para LGBTI+ expulsas de casa, a política pública territorializada, a regulamentação que alcance o cotidiano, o projeto que toca a vida concreta de quem depositou ali sua esperança. Viralização não sustenta mandato. Há ainda uma dimensão conceitual que atravessa esses casos, um exemplo, Eduardo Leite declarou em 2021 que era “um governador gay, e não um gay governador”, formulou uma distinção que ajuda a pensar dois regimes políticos. No primeiro, a identidade aparece como dado biográfico, sem alterar estruturalmente a agenda. No segundo, a identidade se torna epistemologia, reorganizando prioridades a partir de sujeitos historicamente excluídos. É nesse ponto que parte da esquerda brasileira revela suas contradições. Há uma gramática de inclusão frequentemente condicional. O corpo dissidente pode ser aceito, desde que não perturbe pactos conservadores, não tensione alianças religiosas e não confronte o binarismo que ainda organiza muitas siglas. É o que chamo de prolepCIS, uma antecipação cisnormativa do futuro como horizonte único e legítimo. A queda de apoio de determinadas figuras públicas não deve ser lida automaticamente como derrota de agendas progressistas. Pode também indicar maturidade crítica de um eleitorado dissidente que recusa ocupar apenas o lugar de ornamento institucional. O silêncio em Guarulhos não é apatia, é leitura política. O campus do IFES não é coincidência, é memória de política que funcionou e o eleitorado brasileiro, periférico, trabalhador e LGBTI+, parece cada vez mais apto a separar símbolo de projeto. Quem ainda não compreendeu isso encontra, cedo ou tarde, a resposta nas urnas.

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