Sobretaxa dos EUA amplia impactos sobre exportações brasileiras e pressiona indústria
A sobretaxa de 25% sobre parte das importações brasileiras, anunciada pelos Estados Unidos, amplia os efeitos das medidas comerciais adotadas pelo governo de Donald Trump desde março de 2025 e intensifica a pressão sobre a indústria nacional. Segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), as tarifas impostas desde então já afetaram 74% dos estados brasileiros, com queda nas exportações para o mercado norte-americano em 20 das 27 unidades da Federação no primeiro semestre de 2026.
No período, as vendas brasileiras aos Estados Unidos recuaram 13% em relação ao mesmo intervalo de 2025, o equivalente a US$ 2,6 bilhões. A retração foi puxada principalmente pela redução de 8,7% nas exportações de bens industriais, incluindo produtos semimanufaturados de ferro e aço, ferro fundido, pasta química de madeira não conífera, óleos de petróleo e ligas de aço.
Apesar da queda, os Estados Unidos seguem como o principal destino das exportações da indústria de transformação brasileira, segmento responsável por produtos de maior valor agregado.
Entre os maiores estados exportadores para o mercado norte-americano, São Paulo registrou redução de 4,3% nas vendas. Também apresentaram retração Minas Gerais (-18,9%), Espírito Santo (-19,2%), Rio Grande do Sul (-22,6%), Santa Catarina (-32,9%), Paraná (-32,9%) e Bahia (-14%).
A Região Norte foi uma das mais atingidas. Seis dos sete estados registraram queda nas exportações para os Estados Unidos, com destaque para Acre (-62,8%), Tocantins (-52,1%), Rondônia (-49,1%), Amapá (-41,2%) e Pará (-31,4%). O Amazonas teve redução mais moderada, de 2,6%.
Além da retração nas vendas, os dados evidenciam a dependência de alguns estados em relação ao mercado norte-americano. Em Sergipe, 52,3% das exportações tiveram como destino os Estados Unidos no primeiro semestre. No Ceará, esse percentual foi de 33,4%; no Espírito Santo, 27,5%; e em São Paulo, 17,1%.
Segundo o presidente da CNI, Ricardo Alban, a nova tarifa tende a reduzir ainda mais a competitividade da indústria brasileira em um de seus principais mercados consumidores.
A sobretaxa, com vigência prevista para 22 de julho, alcança cerca de 4 mil produtos brasileiros. Entre os itens afetados estão máquinas agrícolas, equipamentos de mineração, ferramentas de jardinagem, componentes de borracha para veículos, calçados, vestuário, papel, etanol, açúcar orgânico, molduras de madeira, celulose de dissolução e parte dos produtos químicos destinados a usos não farmacêuticos.
Ao mesmo tempo, mais de 2 mil códigos tarifários permaneceram isentos. Estão entre as exceções produtos como café, carne bovina, mel orgânico, açaí, laranja, ferro-gusa, hidróxido de alumínio, aeronaves e componentes aeronáuticos, terras raras, sucata de aço e determinados produtos energéticos.
Em resposta à medida, o governo brasileiro informou que poderá utilizar os mecanismos previstos na Lei de Reciprocidade Econômica, que autoriza a adoção de medidas equivalentes diante de barreiras comerciais impostas unilateralmente por outros países. O Palácio do Planalto classificou a decisão dos Estados Unidos como um retrocesso nas relações comerciais entre os dois países.
O governo norte-americano, por sua vez, afirmou que poderá adotar novas medidas caso o Brasil responda com aumento de tarifas sobre produtos dos Estados Unidos, alegando que avaliará se o nível atual das sanções é suficiente para atender aos objetivos da política comercial adotada.
O vice-presidente Geraldo Alckmin informou que o governo federal prepara um pacote de apoio aos setores mais afetados. Entre as medidas em estudo estão a ampliação dos instrumentos do Plano Brasil Soberano, linhas de crédito para empresas exportadoras e ações voltadas à abertura de novos mercados para reduzir a dependência das exportações destinadas aos Estados Unidos.
