Master: Vorcaro terá que entregar Flávio Bolsonaro em delação negociada por ex-advogados de Michelle
Publicada em: 10/08/2026 05:38 -
Vorcaro prepara nova delação e terá de explicar relações com Flávio Bolsonaro e Ciro Nogueira
Classificado como “irmão” em um áudio no qual Flávio Bolsonaro (PL) cobra parte dos US$ 24 milhões que teriam sido prometidos ao clã, supostamente para financiar o filme Dark Horse, o banqueiro Daniel Vorcaro terá de detalhar sua relação com o senador e com o presidente do PP, o ex-ministro da Casa Civil Ciro Nogueira (PP-PI), em uma nova proposta de delação premiada relacionada ao caso Master.
Esta é a terceira tentativa de acordo apresentada por Vorcaro. Para retomar as negociações com a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR), o banqueiro contratou o escritório Bialski Advogados Associados, comandado pelo advogado Daniel Bialski, que já atuou na defesa de nomes como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, a deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) e o ex-ministro da Educação Milton Ribeiro.
A nova proposta busca também viabilizar a saída de Vorcaro da prisão no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha. Para avançar, porém, o acordo deverá apresentar informações e nomes que não constavam nas duas propostas anteriores, ambas rejeitadas pelos investigadores.
Segundo as informações relacionadas às negociações, nas primeiras tentativas Vorcaro teria buscado preservar Flávio Bolsonaro. O cenário mudou após a divulgação do áudio e de informações sobre uma visita feita pelo senador ao banqueiro depois de sua primeira prisão, em novembro do ano passado. Os episódios teriam reforçado, para os investigadores, a existência de uma relação próxima entre os dois.
A relação de Vorcaro com Ciro Nogueira também é apontada como próxima. Em registros mencionados nas investigações, o banqueiro se referia ao senador como “amigo da vida”.
Outro ponto que aumentou a pressão sobre Vorcaro é a investigação sobre o envio de aproximadamente US$ 10 milhões para o fundo Havengate, controlado, segundo as apurações citadas, por operadores ligados a Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Com a ampliação das investigações e a exposição de vínculos com integrantes do clã Bolsonaro, a expectativa é que a terceira proposta de colaboração tenha de incluir informações sobre Flávio Bolsonaro e outros integrantes do grupo político, além de esclarecer as relações financeiras e pessoais mantidas pelo banqueiro com diferentes personagens do caso Master.
As acusações e informações citadas ainda dependem da apuração das autoridades e de eventual comprovação no curso das investigações.
Escritório que defendeu Michelle Bolsonaro assume defesa de Vorcaro
A contratação do escritório Bialski Advogados Associados, comandado por Daniel Bialski, foi divulgada no mesmo dia em que Flávio Bolsonaro (PL-SP) anunciou o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato a vice. Gaspar foi relator da CPMI do INSS e, ao lado do presidente da comissão, Carlos Viana (Podemos-MG), atuou para evitar a convocação de Daniel Vorcaro e do pastor Fabiano Zettel, da Igreja da Lagoinha, cunhado do banqueiro. Zettel aparece como doador de R$ 3 milhões para a campanha de Jair Bolsonaro e de R$ 2 milhões para Tarcísio de Freitas (Republicanos) nas eleições de 2022.
Segundo o jornal Valor Econômico, a nova equipe de defesa de Vorcaro, formada pelos sócios Daniel Bialski, Bruno Borragine e André Bialski, pretende reunir elementos para apresentar uma nova proposta de colaboração premiada, após duas tentativas frustradas de acordo.
O escritório Bialski mantém histórico de atuação em casos envolvendo integrantes ou aliados do bolsonarismo. Entre os nomes defendidos está a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, no caso das joias recebidas da Arábia Saudita pelo governo brasileiro e posteriormente negociadas pelo clã.
Daniel Bialski deixou a defesa de Michelle em agosto de 2023, apenas oito dias após assumir o caso. Na ocasião, advogados que já defendiam Jair Bolsonaro passaram a cuidar também da defesa da ex-primeira-dama. Em 2024, a Polícia Federal concluiu que Jair Bolsonaro teria cometido os crimes de associação criminosa, lavagem de dinheiro e apropriação de bens públicos no âmbito da investigação.
O escritório também atuou na defesa da deputada Carla Zambelli, em diferentes processos, entre eles o caso envolvendo a invasão do sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), pelo qual ela foi condenada.
Outro cliente foi o ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, investigado por supostamente comandar um “gabinete paralelo” formado por pastores que teriam intermediado pagamentos de propina em ouro e escondidos dentro de uma Bíblia.
Nesse último caso, o Ministério Público Federal apontou indícios de vazamento da operação da Polícia Federal contra Ribeiro e levantou a possibilidade de “interferência ilícita” do então presidente Jair Bolsonaro nas investigações.
A escolha do escritório para representar Vorcaro ganha relevância diante das duas tentativas anteriores de delação e da possibilidade de que uma eventual colaboração revele informações sobre relações políticas e financeiras envolvendo integrantes do entorno do banqueiro.